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Memorial

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Imaginação, artes e cura são reavivadas com o resgate da energia feminina 
Por Rose Mary Bezerra


    " É provável que, daqui para a frente, muitos casais sejam surpreendidos festejando e dando boas vindas a cada novo nascimento - como o Universo - quando ouvirem a declaração do obstetra: é uma menina!

     Apesar de ainda ser um hábito comum muitas mulheres amaldiçoarem o dia em que nasceram, devido a séculos de opressão e sofrimento pelo predomínio cultural dos valores ditos masculinos - e, o que é pior, repassarem esse sentimento adiante às filhas e netas - o choque dessa mudança será grande nesse futuro tão próximo.

     A mulher desconhece a força existente em seu interior que lhe foi outorgada pela Natureza com um propósito bem definido. Às portas do Terceiro Milênio, seu despertar começa a ser estimulado com intensidade crescente, justamente por ter um papel chave e grande responsabilidade na virada de jogo do atual contexto de desestruturação geral e destruição do planeta.

     A protagonista fundamental da Nova Era será a mulher, aponta também nesta direção o xamã andino Chamalú Munamauta, que esteve recentemente em Fortaleza, a convite de Ana Maria Norões, do Instituto de Prevenção da Desnutrição e Excepcionalidade (Iprede), e do médico homeopata Dr. Emílio Furlani. O indígena ministrou vários seminários, dentre eles, um destinado às mulheres sobre o despertar da guerreira que existe em cada uma, através do manejo da energia feminina, que começa a predominar daqui para a frente.

     A GUERREIRA — Aos menos convictos dessa passagem do cetro ao poder feminino, o xamã esclarece que essa transformação é algo muito mais amplo do que se possa imaginar, com influências e repercussões cósmicas e planetária. ‘‘Devido a certos ciclos cósmicos, desde meados deste século, está havendo uma mudança do centro de captação de energia da Terra dos Himalaias para os Andes. Isso tem promovido sérias conseqüências transcedentais, sendo uma das mais importantes a reativação da polaridade feminina, a qual não inclui somente às mulheres, mas também todos os seres do sexo feminino, seja do reino mineral, vegetal ou animal.’’

     No que se refere ao aspecto humano desse processo de reativação, as mulheres que foram por tanto tempo marginalizadas, têm se empenhado e mobilizado para essa mudança em seu próprio cotidiano para transpor todos esses preconceitos que barraram seu crescimento, mudança essa de alcance planetário. O empenho feminino fez com que cada mulher conseguisse ir adentrando e atuando em várias frentes, antes proibidas à sua presença, seja social, política, econômica. Com a posição firmada, o cuidado que ela deve ter daqui para frente está em recuperar sua antiga dimensão sagrada, única que permitirá o desenvolvimento de sua potencialidade criativa.

     Chamalú Munamauta brinca ter se especializado na ‘ginecologia espiritual’. Ou seja, pela intensa procura feminina à tradição xamã dos Andes, ele pensou sobretudo nas mulheres que tanto necessitam iniciar-se nos grandes mistérios e resgatar todo esse conhecimento que permaneceu com suas ancestrais.

     Janajpacha, a comunidade criada por Chamalú próximo de Cotchabamba e a poucos quilômetros da selva boliviana, incorporou além da tradição inca-amáutica, outras tradições indígenas e espiritualistas, adaptadas ao tempo e circunstâncias presentes.

     A simplicidade deve ser buscada em todas as coisas, diz o xamã. Essa simplicidade está, inclusive nas formas espirituais que Chamalú ensina aos que buscam sua conhecimento em Janajpacha. Para ele, os ensinamentos constituem a arte de viver, que oferece condições a cada ser, por meio de práticas com danças, músicas e rituais que movimentam as energias telúricas e as integram com as cósmicas, a fazer de sua vida uma obra de arte.

     A mulher natural, espontânea, saudável, é uma artista nata, atesta ele. Regida pela Lua da qual recebe influência direta, a mulher quando se desvia desse caminho natural perde toda sua vivacidade e talento criativo. Na verdade, perde-se de sua essência, de si própria, como uma flor que não consegue desabrochar, abrir-se ao sol da sua vida.

     Tal qual a lua, que vai mudando ciclicamente de fase (a cada 7 dias), a mulher, consoante a tradição xamânica, possui também sua lua interna, exteriorizada através de seu ciclo menstrual. Na tradição indígena, a mulher tem a tarefa de conectar-se com a influência dessas duas luas: a pessoal e a planetária (na linguagem indígena, Pachamama e Mamachilla). Com isso, abrem seus canais de percepção, dando passos adiante em seu crescimento pessoal, expandindo-se em luz e amor. Uma mulher íntegra não precisa dizer nada, sua própria presença já diz tudo.

     São quatro as fases dos ciclos lunares (interno e externo). Na tradição andina dos Incas, o quatro é um número sagrado, por isso, para as mulheres, ele é representado por quatro arquétipos, apontando nas quatro direções.

     A XAMÃ - O primeiro arquétipo com o qual a mulher necessita urgentemente se re-conectar, segundo Chamalú, representa a própria Madre Tierra, ou o Universo criador que é feminino, ou seja, é Pachamama. Ela consegue manter esse elo por meio de atividades muito simples, como caminhar descalça sobre a terra ou a grama, ou mesmo sentar-se sobre a terra com um mínimo de roupa (de preferência, de fibras naturais), procedendo a uma meditação ao entardecer. Em locais fechados e elevados, como apartamentos pode ocorrer deslocamentos de energias pelo distanciamento da terra. A opção é sentar-se sobre a pele de um animal, que dará proteção e a isolará de interferências de energias estranhas.

     O mestre boliviano lembra que um dos locais de captação e trocas energéticas está onde se dorme, por isso, toda atenção a ele é pouca. A pessoa deve procurar desenvolver sua sensibilidade e outros níveis de percepção mais sutis, para saber em quais locais consegue se reabastecer e revigorar e, outros, em que enfraquece rapidamente, chegando até a adoecer. Por isso não se deve dormir em qualquer lugar. Eletroeletrônicos no devem ser evitados no quarto.

     O homem moderno perdeu toda essa informação e sabedoria mantida por seus ancestrais sobre o manejo correto das energias pessoais com a dos que os cercam, incluindo de locais e objetos, muitos com propriedades altamente curadoras e regeneradoras, como determinadas pedras, árvores e, a própria terra. O xamã explica ser importante eleger um local dentro de sua habitação que servirá para seu repouso. Se ele não for ideal, a pessoa logo o saberá identificar, observando a qualidade de seu sono e sonhos.

     É valioso para as mulheres que desejam se desfazer de sobrecargas energéticas negativas, entrar em contato com a terra, colocando suas mãos sobre ela, em forma de uma pirâmica. Descalças e na posição acocorada, dispor as mãos sobre a terra, visualizando algo que sai de seu campo energético e adentra a terra, e algo que penetra em si, é simples e altamente benéfico para a mulher.

     A DEUSA - O segundo arquétipo a se contactar é Mamachilla, a Lua. Pode-se conectar com esse arquétipo por meio da meditação. Um momento indicado pelo indígena boliviano para essa conexão é a fase da lua crescente, cerca de quatro a três dias antes da lua cheia. Coloca-se, então, as mãos em forma triangular, de pirâmide, voltando-a para a lua. Uma forma indireta de conectar com a lua, quando a noite estiver nublada, é por meio das árvores e vegetais, de um modo geral. As plantas contêm energias fortes de Mamachilla.

     Mamacocha é o terceiro arquétipo. São as águas - os lagos e os mares (para os índios, o mar segue ao princípio feminino). As águas outorgam às mulheres os anseios de sua alma, o místico, o mágico, o profundo mistério. ‘‘A terra dá à mulher a força de que ela necessita. Já Mamacocha lhe dá o movimento e a flexibilidade necessária, como a água, que é capaz de tomar todas as formas, sem perder sua essência. Pode-se conectar com ela por meio da dança livre e espontânea.

     A Mamaochio representa a xamã interior, a mulher de sabedoria, capaz do encontro consigo mesma. Neste âmbito, basicamente a mulher se conecta com Mamaochio por meio da meditação e, quando se encontra em sua fase lunar mais externa (no período menstrual), através da auto-observação e auto-contemplação.

     A mulher que observa-se como atua em várias circunstâncias e nos seus diversos ciclos lunares, acaba aprendendo a manejar sua energia em prol de sua felicidade, já que sabe o que a faz feliz, eliminando ou não dando atenção demasiada ao resto."
 
 

     *Redatora do Viva
© COPYRIGHT 1998 Diário do Nordeste.

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2 Responses so far.

  1. Estou nesse momento, sentindo muita necessidade de me encontrar, de me conectar com a natureza. com energias puras, simples como a grama, a água a terra.... Adorei a leitura do texto. Me identifiquei muito e vou em busca disso, obrigada

  2. Anônimo says:

    Nossa quanta sabedoria num texto só! A-do-rei! Estarei atenta daqui pra frente a muitos desses detalhes fundamentais!! Com amor, Marianne

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