.:: Êxtase da Deusa ::.

Memorial

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"Os adeptos do Tantra tornaram a incluir no processo espiritual todos os aspectos da existência que as tradições estabelecidas haviam excluído pela vida da renúncia - a sexualidade, o corpo e universo físico em geral [ atributos vinculados a Shaktí]. Do ponto de vista junguiano, podemos compreenser este processo como uma tentativa deliberada de reinstalar o anima, o princípio psíquico feminino, chamado Shakti ("poder") no hinduísmo e representado na iconografia por deusas como Kalî, Durgâ, Sitâ, Radhâ e centenas de outras divindades.

O princípio feminino é frequentemente chamado apenas de Devi ("a resplandescente") - a Deusa. A Deusa é, acima de tudo, a Mãe do universo, a esposa do divino Masculino, seja ele invocado como Shiva, Vishnu, Brahma, Krishna ou simplesmente Mahâdeva ("Grande Deus").

De acordo com algumas escolas, a Deusa manifesta-se em 10 formas. Estas formas são chamadas de "Grandes Sabedorias" (Mahâ-Vidya) (...):

1. Kalî: que é a forma primária da Deusa. É representada como uma figura escura e imprevisível. Opera por meio do tempo (kâla), que destrói todos os seres e as coisas. Porém, para seus devotos, é uma mãe amorosa que nunca deixa de protegê-los e de cuidar deles.

2. Târa: que é o aspecto salvador da Deusa. Sua função é a de conduzir o devoto em segurança até a "outra margem" do oceano, da existência condicionada. Não obstante, a semelhança de Kâli, Tarâ também é representada muitas vezes como uma divindade terrível que dança sobre um cadáver e segura a cabeça cortada numa de suas quatro mãos - um lembrete de que a graça exige o sacrifício do devoto.

3. Triupura Sundarî: que representa a beleza essencial da Deusa. É chamada Tripurâ ("tres cidades") porque domina sobre os três estados de consciência - a vigília, o sonho e o sono profundo.

4. Bhuvaneshvarî: que, como indica o seu nome, é a soberana (ishvarî) do mundo (bhuvana). Se Kalî representa o tempo infinito, Bhuvaneshvarî representa o espaço e a criatividade infinitos.

5. Bhairavî: que é o aspecto feroz e aterrorizante da Deusa, a qual exige a transformação do devoto. Costuma ser representada como uma mulher ensandecida de sangue. Não obstante, sua ira é divina e é sempre construtiva. Seu poder libertador é indicado pelo fato de que duas de suas mãos fazem o gesto da transmissão de conhecimento, enquanto as outras duas fazem o gesto da proteção.

6. Chinnamastâ: o aspecto da Deusa que estilhaça a mente. É representada com a cabeça (masta) cortada (chinna). Essa imagem medonha deixa claro aos devotos que eles têm de ir além da mente e perceber a Realidade diretamente.

7. Dhûmâvatî: que é o aspecto da Deusa que funciona como uma divina cortina de fumaça sob a forma da velhice e da morte, donde o seu nome "Esfumaçada". Só o devoto fervoroso é capaz de vislumbrar a promessa de imortalidade da Deusa por trás do medo da morte.

8. Bagalâmuktî: que, embora seja de uma beleza sem par, leva um bordão com o qual esmaga as ilusões e as concepções errôneas dos seus devotos.

9 . Mâtangî: que, sendo a padroeira das artes e especialmente da música, conduz o devoto à contemplação do som primordial sem causa.

10. Kamalâtmikâ: que é a Deusa na plenitude do seu aspecto gracioso. É representada sentada sobre um lótus (kamala), símbolo da pureza.

As 10 formas da Deusa, quer graciosas, quer terríveis, são adoradas como a Mãe Universal (...).

Devî não é somente a que cria e sustenta, aquela cuja beleza ultrapassa toda imaginação; é também a Força terrível que elimina o universo quando chega a hora marcada. No corpo-mente humano, Devî particulariza-se no "poder enrodilhado" (Kundalinî-Sjaktî) cujo despertar constitui o fundamento mesmo do Tantra-Yoga (...).

Mas Shaktî, ou Devî, nada seria sem o pólo masculino da existência. Costuma-se representar Shiva e sua eterna esposa unidos em êxtase num abraço (...). eles pertencem um ao outro. No plano transcendente, deleitam-se eternamente um com o outro no êxtase da sua união. Esse casamento transcendente é o arquétipo da correlação empírica que existe entre a mente e o corpo, a consciência e a matéria, o masculino e o feminino. Segundo um ditado tântrico bem conhecido, "Sem Shakti, Shiva é morto". Isto é, Shiva não pode criar."

Georg Feuerstein - "A tradição do Yoga"

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